quarta-feira, 23 de abril de 2014

Sobre consolar...

E então uma mãe perde seu bebê, e o pai ansioso, fica em cima da esposa, dizendo: ''depois a gente faz outro, chora não, depois te dou outro''. E a mãe me dizendo, fala pra ele não dizer isso, é meu filho que morreu, não é um vestido que ele me dá outro depois, porque esse rasgou, tira ele daqui de perto de mim, tira dona doula, tira... E, por mais difícil que é assistir isso, me recolho por alguns instantes, como o Monge Antônio me ensinou e no momento oportuno longe da mãe, digo ao pai para não pressionar a sua esposa, para deixá-la chorar, porque o momento é sim de choro e de luto. E então, ele chora e me diz aflito, que para ele é ruim demais ela mal assim, que ele não consegue vê-la triste, que não suporta ver sua mulher chorando. Consolar os dois, com meu coração doendo também, é uma tarefa árdua, mas que compensa, pois não sei bem como, encontrei palavras a serem ditas e os acalmei. Texto: Solange Mazzeto

sábado, 19 de abril de 2014

Os ''pacotinhos'' dessa semana.

O nascimento dos bebês, é algo muito gratificante na minha vida. É bom poder observar os novos seres humanos que chegam nesse mundão de Deus, e dar as boas vindas. São todos sem exceção únicos, ímpares, particulares, muita gente usa a expressão de que: ''todos nascem com 'cara de joelho'. Uma inverdade e claro, uma brincadeira. Os bebês costumo brincar que nascem 'amassadinhos' e depois vão tomando formas mais arredondadas, afinal tiveram de se espremer para passar pelo canal de parto, mesmo em caso de cirurgia cesariana, os bebês sofreram estímulos hormonais e uterinos para 'saírem' do ninho, afinal chegou a hora de serem aninhados aos colos ansiosos que os esperam. São esses os 'pacotinhos', do meu último plantão:>>> Arthur ( 3.215 kg e 48 cm); Sofia; Danilo; Yasmim ( 2.750 kg e 49 cm); Guilherme; Abel; Maria Eduarda; Esaú. >>Desejo a todos uma boa estadia, desejo que sejam amados e bem criados pelos seus pais, e que sejam bons homens e mulheres. Que Deus lhes cubra de bençãos e amparo. Beijos meus!
Bebês em maternidade (Foto: Reuters) Texto: Solange Mazzeto

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Aborto

Gosto de ser doula, mas há plantões complicados, onde a fé é testada. Onde a paciência merece destaque. Há trabalhos de parto que são longos, onde as mães se esgotam, choram, reclamam. Mas é compensador a espera, a angústia, porque depois vem aos braços um bebezinho cheio de saúde e alegrias. Mas nem sempre a realidade se apresenta assim, há dias de abortos, de nascimentos de bebês não saudáveis e onde o desgaste se faz maior e o choro em vez de ir embora, se torna presente. Nisso tudo há as Mãos do Eterno, há as asas dos Anjos de Maria, há a esperança, a resignação, que é assim que devemos prosseguir. De um jeito meio torto, mas é do jeito que é real agora. Não é fácil acompanhar isso, nem um pouco, mas como doula, meu dever é ajudar a parturiente, e os familiares a aguentar essa barra. Meu coração chora com eles, mas a fé aumenta, porque sabemos que Deus sabe o que faz, e só a Ele cabe decidir a vida ou a morte. E como diz na Bíblia, 'a tudo daí graças', então, obrigada Deus, por mais um plantão, e que eu assim como as famílias que sofreram e estão ainda se restabelecendo de suas perdas, sejam envolvidas por mais amor ainda. É isso por hoje. -Texto: Solange Mazzeto Imagem: Google

terça-feira, 8 de abril de 2014

Natimorto

Dia estranho, fui doular, toda entusiasmada, feliz da vida, solzinho pela manhã, tomei um belo banho de cabeça e tudo, e lá fui eu, cabelo molhado, toda de branco, jaleco cor de rosa claro na mochila, apetrechos de doulagem. Chegando lá, plantão com poucas mães, mas isso não quer dizer necessariamente que seria tranquilo, às vezes, tem parto demorado, ou problemático. E hoje teve um caso chato, parto com o bebê natimorto, de quase 6 meses de gestação. Triste ver os olhos da mãe, do pai, triste demais. Não se acha palavras para dizer. Dei um pouco de abraço, beijo na testa, carinho na mão, e disse que Deus sabia o porque, e que a dor da perda seria para sempre. Porque é isso, luto é luto, a vida toda, a gente acostuma a viver com a dor da perda, mas não é uma dor que nos abandone. Depois ainda nasceu duas Alices e o Gustavo. Vim para casa, estranha, muito estranha.
Fotografia e texto: Solange Mazzeto

terça-feira, 1 de abril de 2014

1º de Abril

Muitos bebezinhos nascidos hoje. Plantão intenso, uma doideira boa. Adoro quando mal tenho tempo de respirar. Me sinto numa Fábrica de bebês. Um atrás do outro, 'produzidos' em série, mas todos com selo de garantia e gemidos extras. (risos). Todos lindos, mães e pais, altamente ''adrenalizados'', emoção a flor dos olhos, que verte em lágrimas azuis, lágrimas serenas de gratidão, depois de horas de espera, angústia e ansiedade. Os céus se abrem em momentos ímpares, que nunca mais esquecerão. Você enxerga então, o ser através da imagem, imagem por vezes machista do homem, ali ele vira manteiga se derretendo ao ver o ato da mulher em cena, ali eles são fêmea e macho, na essência, voltam a ser Adão e Eva no Paraíso, se tornam altamente ''animais'' na síntese da palavra. O corpo pulsa, o coração explode. No plantão de hoje, os homens não foram nem almoçar, ficaram ali de plantão, suas necessidades reais aprisionadas num vulcão de misericórdia por suas mulheres. É bonito observar essa massa masculina absorta ao ato de parir. Alguns nomes de hoje, claro que não tive tempo de pegar e marcar todos nomes. Mas esses são os que ajudei a trazer ao mundo, uma sutil ajuda, um ajudar não técnico, mas perfeitamente treinado na empatia, no sentir, no impulsionar aqueles papais e mamães de primeira viagem, de penúltima viagem, de terceiro filho, de sétimo filho, mas sempre o primeiro, a primeira desse tempo do dia de hoje! Artur>> Antônia>> Manuela>> Ana Júlia>> Eduarda>> Lorena>> Isabela>> Sara>> Davi>>>>> Texto: Solange Mazzeto Imagem: Google